" O
café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o
flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a
posterestante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o
café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três
cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a
agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que
café procurar, a que
Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no
Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num
café. Num
café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trostsky."
George Steiner,
A ideia de Europa, Gradiva.